Do efeito dos raios gama sobre as margaridas selvagens.

Após a chamada derrocada dos grandes estúdios, o cinema americano dos anos 1970 pôde, sem muita maquiagem, falar de um lado não muito glamuroso dos Estados Unidos. É nessa época que acompanhamos os derrotados de O Espantalho (1973, Jerry Schatzberg) ou de Midnight Cowboy (que é de 1969, mas vale), a américa caipira revelada e questionada em Nashville (1975, Robert Altman) e mesmo, em um registro menos “realista”, a família repressora (incorporada pela mãe) em Carrie, a Estranha (1976, Brian de Palma).

Claro que, ao final dessa década, houve também o surgimento do blockbuster, a partir de Star Wars, Tubarão, Superman etc., mas não é sobre a ponte entre um cinema e outro que quero falar (para isso serve a edição em português do livro Easy Riders, Raging Bulls). Quero só lembrar dessa abertura que houve em Holywood, que revelou ou consolidou uma série de talentos e que, no final das contas, possibilitou a chamada Americanarama, termo que circulou nos anos 80 para falar de filmes que retratavam de forma “crítica” o interior dos Estados Unidos, incluindo aí True Stories (1986, David Byrne), Gosto de Sangue (1984, Coen) ou Veludo Azul (1986, David Lynch).

Tudo isso para chegar em The Effect of Gamma Rays on Man-in-the-Moon Marigolds (1973), belíssimo filme de Paul Newman que é, à sua maneira, um compêndio ao mesmo tempo do clima depressivo e da liberdade formal dos anos 70. Está ali uma família desajustada composta por uma mãe e duas filhas. A mãe, Beatrice, abandonada pelo marido e posteriormente viúva, vive de bicos e está sempre com dificuldades financeiras. Uma das filhas, Ruth, com problemas neurológicos, vive para namorar, ser cheerleader, mas sente que está seguindo os passos da mãe. A mais nova, Matilda, é completamente centrada nas aulas de ciência (o trabalho que vai apresentar é o que dá título ao filme, que evidentemente tem um significado maior ao final da projeção), sendo vista como uma freak pelos outros, com exceção de seu professor que enxerga nela um grande potencial.

Joanne Woodward constrói uma personagem absolutamente fantástica, over the top como o personagem exige, indo do engraçado ao assustador, ou do sublime ao patético, em questão de segundos. Como a mãe que não enxerga que uma de suas filhas pode sair daquele inferno em que vivem, ela é não somente é o encontro dos derrotados de O Espantalho com os alientados de Nashville, mas também a mãe absurdamente possessiva de Carrie.

Claro que, no seu retrato suburbano de uma mulher que está a todo tempo “representando” para poder aguentar a vida barra-pesada, Newman se aproxima de outro personagem bastante representativo desses EUA deprê dos anos 70, a Mabel de A Woman Under the Influence (1974). O que nos faz pensar no quase clichê: foi Cassavetes, com Shadows, Faces e Husbands, que possibilitou isso tudo?

Mas se não são poucas as semelhanças entre o filme de Newman e os de Cassavetes, seria injusto com o primeiro pensar em simples decalque. Porque The Effect… tem uma coesão que não se encontra muito em Casssavetes. Fruto da peça de onde é adaptada, com certeza, mas fruto também de uma narrativa direta, sem firulas, aparentemente “neutra” de Newman, que sabia exatamente onde colocar a câmera para poder ver e ouvir aqueles atores, aqueles personagens, enfim, aqueles seres vivos que estavam em sua frente. E se não é possível acusá-lo de colocar seus personagens em um “experimento” onde é possível observá-los fria e cinicamente (como um Todd Solondz da vida), é porque Newman parecia saber que a observação naturalista pode ser acompanhada de paixão e humanidade. Exatamente como conclui Matilda ao final do filme.

Burlesque (et plus)

Tio Boonmee em Porto Alegre

Chegando de viagem, com alguns filmes na mente para comentar, vejo que finalmente estréia em Porto Alegre o último filme de Apichatpong Weerasethakul, Tio Boonmee, que Pode Recordar Suas Vidas Passadas (Loong Boonmee raleuk chat, 2010). Um OVNI em vários sentidos: entre filmes que ganharam Cannes, entre os filmes em cartaz na cidade (a maioria preparando o terreno para a sacrossanta festa do Oscar), no ambiente de shopping (que é onde eu o vi) etc.

Um belo OVNI, aliás. A princípio, mais ingênuo que Síndromes de um Século, seu filme anterior, pelo caráter esotérico da trama, que mistura volta de mortos, desaparecidos que voltam como novas criaturas, digressões de outras vidas etc. Mas, assim como Além da Vida (Clint Eastwood) não é simplesmente uma defesa sobre a crença da vida após a morte, Tio Boonmee também não é o apego cego a uma crença, mas um mergulho nela, tentando ver tudo de mágico que se pode extrair dela. É que Apichatpong acredita no poder do cinema em transformar esse mundo mágico em imagens e oferecer, via seus filmes, essas imagens para que nós possamos entrar nesse mundo mágico. É quase uma ontologia do fantástico.

Não que essa entrada seja fácil. A digressão que há no meio do filme desconcerta até quem já está habituado ao universo do realizador, mas ao se permitir embarcar nesse desvio, podemos ver um dos momentos de maior beleza (visual, auditiva – sensorial, enfim) do cinema recente. O ritmo é lento, os planos são longos (não necessariamente formando planos-sequência), a narrativa estranhíssima. É preciso se deixar levar por essa viagem em um mundo mágico que muitas vezes não faz sentido, embora apele para todos os sentidos.

Um dos pontos altos do filme, já presentes nos outros trabalhos do diretor, é a inusitada mistura de um realismo cotidiano convivendo naturalmente com o fantástico. Como se naquele lugar, para aquelas pessoas, o fantástico (ou, pelo menos, aquele fantástico) fosse algo natural, palpável. O maravilhamento pode vir então de uma cena de diálogo (em uma das frase mais marcantes do filme, o personagem da cunhada fala para Boonmie: “O céu é superestimado.”), de uma criatura improvável como um macaco-fantasma, ou simplesmente da criação climática de vários mergulhos que o filme propõe: mergulho na água, mergulho na floresta, mergulho na caverna. Homem, animal, natureza, fantástico, tudo está ali para ser sentido de alguma maneira.

Do diretor, ainda prefiro Tropical Malady, filme do qual esse último se aproxima em vários momentos, às vezes me cheirando a repetição. O final, outra digressão fantástica, não me convence de todo. Mas Tio Boonmee imprime uma sensação, ou uma coleção delas, que só cresce com o tempo.

Inácio Araújo sobre filmes que ninguém compreende

Excelente o texto do Inácio Araújo em resposta a um comentário em seu blogue.

Merecia mais comentários, mas como estou absolutamente sem tempo, só digo que é uma das mais completas e precisas defesas da liberdade de ver (logo, do prazer de ver) cinema ou de fruir qualquer outro tipo de arte que já vi. Tudo de maneira clara e direta.

Recomendadíssimo.

Vai uma presença?

Sobre duas animações nostálgicas e marginais

São duas animações marginais, cada uma a seu modo e guardadas as devidas proporções, é verdade.

Comecemos com O Mágico (L’illusioniste, 2010). Dirigido pro Sylvain Chomet, que ficou conhecido por As Bicicletas de Belleville. Roteiro de Jacques Tati. Indicação ao Oscar de melhor longa de animação. Ou seja, tem capital cultural para dar e vender, o que tiraria o filme da pecha de “marginal”. Mas, enfim, considerando que o filme não tem diálogos (algumas falas são construídas com grunhidos e algumas palavras), que está passando em poucos cinemas de Porto Alegre e que nenhum deles o exibe em 3D (raridade hoje em dia em termos de desenho animado), não acho exagero a denominação. Na verdade, o que mais me incomoda no filme é justamente essa filiação que ele parece demandar a todo momento: a nostalgia, ao tempo “mágico” que se foi, encarnado na genialidade de Tati.

Só esta não tinha nada de nostálgico: sua crítica ao mundo “moderno” era mais um apelo ao humano do que um elogio aos velhos tempos. Mr. Hulot era um desastrado, um dos maiores da história do cinema, porque sua figura expressava esse desajeitamento com o mundo que surgia, cheio de máquinas novas que escondiam o que o homem tinha de mais puro – uma visão ingênua, certo, mas genial na graça que produzia, graças à arquitetura absurda – que muitas vezes nos lembrava que talvez aquele absurdo já estivesse tomando conta do mundo (o trânsito em Traffic é para mim o melhor exemplo).

Daí sua figura grande, batendo-se onde não deve, virando-se gentilmente para pedir desculpas, quando o mundo estava interessado em outra coisa. A repetição desse gestual em O Mágico, por mais fiel que seja ao “original”, é apenas uma pálida sombra de algo que já se foi. E esso é o pior efeito da nostalgia: a estagnização em algo que já passou, que era, bradam os nostálgicos, inquestionavelmente melhor e mais bonito. Daí que a marginalidade de O Mágico também funciona como commodity, pronta para ser consumida como “sensibilidade”.

Se o filme resite apesar disso é porque o traço e as cores do Chomet, que remetem a alguns desenhos da disney dos anos 70, têm uma força indiscutível, e porque a jornada que o filme propõe não enche o saco com passagens desnecessárias. Ah sim: como faz bem um desenho mais silencioso.

Já que a palavra é nostalgia, vamos para o outro marginal do grupo, Brasil Animado (2011). Um desenho animado, primeiro filme em 3D lançado no Brasil, com 250 cópias. Também aí, a princípio, nenhum traço de marginal. Mas é só olhar de perto, para mudar de idéia. Longa brasileiro de animação, com tecnologia nova, razões suficientes para levantar suspeitas (porque o domínio da tecnologia ainda é, para o espectador médio, o primeiro pecado do cinema brasileiro, seguido de perto de algo genérico que ele chama de “roteiro”). Resultado: pouco mais de 22 mil espectadores em uma semana, o que dá cerca de 90 espectadores por cópia, ou ainda pouco mais de 12 espectadores por dia. Na sessão que fui, em um shopping, havia 9, comigo e meu filho.

Essa é sua condição marginal, querer entrar à força em um mercado. Mas e o filme, o que ele é? Poia temos aqui um dos mais perfeitos exemplos de um fillme que corresponde exatamente à análise do produto (boa parte do público médio também confunde essas duas coisas, mas isso é outro assunto). A imagem de subproduto é a que fica. Mais especificamente, do subproduto de programa de TV, por três motivos:

1- Por causa de sua vocação “educativa”, pois o filme se propõe a revelar o Brasil nas suas maravilhas mais diversas. De boas intenções Brasília está cheia, e mesmo que aqui e ali pipoquem “críticas” (ao europeu que levou nossas riquezas, por exemplo), dá para dizer sem pestanejar que o filme encheria de orgulho nossos presidentes militares, pelo ufanismo tacanho e visão antiquada do que deve ser educacional.

2- Mas imaginemos o filme como programa de TV, então. Seria com certeza menos penoso, ver episódios de 15 minutos sobre as diferentes regiões do Brasil. Mas mesmo assim ele perderia feio para outros produtos parecidos, como por exemplo a genial série “Quelles drôles de bêtes“, que foi exibida no Brasil há alguns anos (não lembro o nome em português, onde um lagarto chamado Henry apresentava, em cada episódio, um aspecto do mundo animal). Assim como em Brasil Animado, esse personagem fazia comentários engraçados em cima de cenas documentais. Só que eles eram espirituosos, nada óbvios, numerosos. Tudo aquilo que os de Brasil Animado não são.

3- por fim, o aspecto que mais me intriga. A diretora e o roteirista tem experiência com desenhos animados na TV. Imagina-se que conheçam outros desenhos do gênero, se não “Quelles drôles de bêtes”, então algumas das centenas referências em animação que existem e que tratam o humor infantil de uma maneira bem diferente da que o filme trata. Dos desenhos do Cartoon aos do Discovery Kids, das produções canadenses (que vez ou outra passam no D. Kids ou na TV Cultura) aos filmes da Pixar, o que se vê é que não dá para fazer graça com o óbvio, mesmo quando é para criança, ou talvez principalmente quando é para criança. Mas a julgar pelas constrangedoras piscadelas aos adultos da platéia , o problema não está ligado ao fato de ser um filme infantil. Referências a Avatar, Fernando Meirelles e o Festival de Gramado, dezenas de lugares-comuns “regionais” que parecem ter vindo de um A Praça é Nossa, duas músicas de Ed Motta e Wilson Simoninha que repetem a exaustão; tudo isso mostra que o problema do filme está, infelizmente, mais embaixo.

Ou seja, talvez Brasil Animado (2011) seja mais perto de Brasil Animado (1928) do que alguém poderia imaginar. É, por tudo isso, um filme involuntariamente nostálgico, preso em um passado que ele acredita de alguma forma fazer ainda sentido, mas que ele não consegue nem ao menos transformar em moeda de troca e vender.

Para não falar que o filme é um desastre absoluto, vale dizer que o 3D é bom (o que me convence cada vez mais que o efeito é completamente irrelevante para o filme, assunto a que quero retornar em breve por aqui) e que meu filho de 8 anos gostou bastante (o que se deve, acho eu, a uma curiosidade ainda grande sobre um país que ele ainda conhece muito pouco, mas isso é um assunto a que não pretendo retornar aqui).

A última gravação de Orson Welles