Duas ou três coisas sobre Mad Men

Com alguns ótimos filmes vistos no feriadão, me sinto impelido a falar mais de uma série.

Que coisa. Não sou fã de séries. Confesso inclusive uma dificuldade pessoal em acompanhá-las, por diversas razões, combinadas ou não: a quantidade incrível de filmes que a história do cinema nos deixou e que merecem ser conhecidos ou revistos; a duração das séries, que nos obriga a perder um enorme tempo acompanhando-as; os limites que o cinema mais ousado alcançou e nos quais as séries estão longe de fazer cócegas.; a hiper-valorização de uma suposta “produção de qualidade”, da qual desconfio muito, e por aí vai um longo etecétera. Mesmo assim, o final dessa quinta temporada de Mad Men, que só agora pude ver, me dá ganas de pensar e repensar toda a série e o que faz dela uma exceção.

A série é criação de Matthew Weiner, o mesmo que já tinha feito um belo trabalho em Os Sopranos. Comecemos pelo óbvio: o “autor” de uma série é definido não pela noção fechada do diretor (cada episódio pode ter um diretor diferente), mas por aquele que a concebeu, define os arcos dramáticos de cada temporada, eventualmente dirigindo a season finale. Com Mad Men, Weiner parece ter encontrado o estado da arte desse tipo de autoralidade próprio de séries.

Me dou conta que Mad Men é a única série que vi (acompanhei poucas, confesso) que parece melhorar a cada temporada. Ela parece renovar o interesse pelo rearranjo extremamente convincente entre os personagens, pela excelência dos elementos (muito já se falou do elenco, dos figurinos e dos cenários da série como uma referência de padrão máximo) e, principalmente, por uma evolução dramática forte. Sim, porque se há uma pretensão descabida nas séries atuais por um padrão de qualidade alto (“melhor que no cinema”, diriam uns), me parece são poucas que se sustentam dramaticamente por muito tempo.

Tomemos como exemplo essa quinta temporada, então. Dos treze episódios, há um miolo meio morno, com uma ou outra situação mal-resolvida (o sobrepeso de Beth, caminho ousado em um primeiro momento, se resolve de maneira bastante sem graça). Mas nos três últimos episódios a coisa esquenta de um jeito bastante radical, eu diria (na falta de outra palavra melhor). Indo mais longe, talvez seja possível dizer que a dramaturgia da série, que já tinha mostrado sua potência em episódios anteriores, fazem com que ela alcance um sentido existencial ainda não experimentado.

Há o suicídio do sócio, que estava numa sinuca de bico por causa dele mesmo, mas que recebe o empurrão final pela decisão dura de Don Draper. Não havia outra maneira, não havia mais como confiar nele, Don só fez o que podia fazer. Mesmo assim, uma onde de culpa – e de fantasmas – vão perseguí-lo durante muito tempo. Uma questão existencial por excelência: a consequência de nossos atos, independente do quão eticamente justificáveis eles sejam.

Tem também a jogada de Joan de ir para cama para conseguir uma conta para a agência – e Don tentando impedir, sem saber que quando ele o faz já era tarde demais.

Há, pasmem, aquele personagem da mulher que se envolve com o Campbel, que é internada pelo marido, toma eletrochoque, e esquece tudo. Que porrada, aquilo!

E o grande dilema: a procura de emprego por Megan, que almeja a arte, mas que acaba no final indo para publicidade. Só que ela não está mal por causa disso. Já ele, Don, sim. No último episódio, há duas grandes cenas que fecham esse drama: Don sozinho, vendo o teste para o cinema feito por Megan e se dando conta da nulidade daquilo (o que nos remete à cena do super-8 do final da primeira temporada), e o magnífico plano dele se afastando lentamente do cenário de conto-de-fadas em que ela está completamente inserida, com um travelling que não só o acompanha, como sublinha sua melancolia. Talvez o grande momento imagético da série.

Para coroar, a cena final. Don, sozinho em um bar, quando chega uma mulher que pede para acender o cigarro. Ela mostra uma amiga, que estaria interessada nele, e pergunta: “Are you alone?”. A dubiedade da língua inglesa fecha a temporada como uma porrada naquele homem que muitas vezes pensamos controlar tudo.

Fiquemos, então, com Joseph Conrad: “We live as we dream, alone”.

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