Tio Boonmee em Porto Alegre

Chegando de viagem, com alguns filmes na mente para comentar, vejo que finalmente estréia em Porto Alegre o último filme de Apichatpong Weerasethakul, Tio Boonmee, que Pode Recordar Suas Vidas Passadas (Loong Boonmee raleuk chat, 2010). Um OVNI em vários sentidos: entre filmes que ganharam Cannes, entre os filmes em cartaz na cidade (a maioria preparando o terreno para a sacrossanta festa do Oscar), no ambiente de shopping (que é onde eu o vi) etc.

Um belo OVNI, aliás. A princípio, mais ingênuo que Síndromes de um Século, seu filme anterior, pelo caráter esotérico da trama, que mistura volta de mortos, desaparecidos que voltam como novas criaturas, digressões de outras vidas etc. Mas, assim como Além da Vida (Clint Eastwood) não é simplesmente uma defesa sobre a crença da vida após a morte, Tio Boonmee também não é o apego cego a uma crença, mas um mergulho nela, tentando ver tudo de mágico que se pode extrair dela. É que Apichatpong acredita no poder do cinema em transformar esse mundo mágico em imagens e oferecer, via seus filmes, essas imagens para que nós possamos entrar nesse mundo mágico. É quase uma ontologia do fantástico.

Não que essa entrada seja fácil. A digressão que há no meio do filme desconcerta até quem já está habituado ao universo do realizador, mas ao se permitir embarcar nesse desvio, podemos ver um dos momentos de maior beleza (visual, auditiva – sensorial, enfim) do cinema recente. O ritmo é lento, os planos são longos (não necessariamente formando planos-sequência), a narrativa estranhíssima. É preciso se deixar levar por essa viagem em um mundo mágico que muitas vezes não faz sentido, embora apele para todos os sentidos.

Um dos pontos altos do filme, já presentes nos outros trabalhos do diretor, é a inusitada mistura de um realismo cotidiano convivendo naturalmente com o fantástico. Como se naquele lugar, para aquelas pessoas, o fantástico (ou, pelo menos, aquele fantástico) fosse algo natural, palpável. O maravilhamento pode vir então de uma cena de diálogo (em uma das frase mais marcantes do filme, o personagem da cunhada fala para Boonmie: “O céu é superestimado.”), de uma criatura improvável como um macaco-fantasma, ou simplesmente da criação climática de vários mergulhos que o filme propõe: mergulho na água, mergulho na floresta, mergulho na caverna. Homem, animal, natureza, fantástico, tudo está ali para ser sentido de alguma maneira.

Do diretor, ainda prefiro Tropical Malady, filme do qual esse último se aproxima em vários momentos, às vezes me cheirando a repetição. O final, outra digressão fantástica, não me convence de todo. Mas Tio Boonmee imprime uma sensação, ou uma coleção delas, que só cresce com o tempo.

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