Rivette, Lula e os vários tipos de corsários

A essa altura do campeonato, o que escrever sobre a chamada pirataria de filmes?

Tem gente que é contra cegamente, porque é crime. É o tipo de pessoa que acha que seguir a lei (qualquer tipo de lei) é a solução para todos os problemas da humanidade. Mas que lei? A lei de Deus, para quem acredita, é inquestionável, e tem aqueles que acham que dá até para matar por causa dela. E a dos homens? E as leis que foram forjadas por ditaduras, ou por grupos com interesses próprios que chegaram ao poder? E as leis que caducam, ou seja, valem para uma época e depois não fazem mais sentido em outra? Há vários outros tipos de lei que não somente podem, mas devem ser mudadas – o que não significa, ao contrário do que acham os devotos cegos da lei, que se possa ou se deva mudar de qualquer jeito. Para isso a o debate, essa coisa chata que existe para que funcione plenamente a democracia.

Há também o outro grupo, que acha que tem todo o direito de fazer o que quiser com um arquivo eletrônico que chega em suas mãos. Não importa que algumas pessoas possam estar sendo prejudicadas, esse grupo não vai levar isso em consideração. Não importa você levantar questionamentos legais, pois eles virão com coisas do gênero “com tanto ladrão solto por aí, eles vem se preocupar com isso”. Não importa você levantar questionamentos morais, pois eles não sabem diferenciar moralidade de moralismo. Não importa nenhuma tentativa de entender a complexidade das coisas (ou seja, pensar as partes envolvidas, ponderar, chegar a uma opinião razoável).

Esses dois grupos se parecem muito um com o outro, muit mais do que eles imaginam.

Há vários pontos, no entanto, pertinentes de serem levantados sempre, por mais batidos que sejam:

1- há uma diferença grande entre partilhar um arquivo na internet (via torrent, armazenamento em um site, p2p etc) e gravá-lo num DVD para vender. No primeiro caso, na grande maioria das vezes, a intenção é clara: disseminar. No segundo, é o lucro. Também não quero demonizar esses últimos: a falsificação da Nike ou do DVD do Tropa de Elite existe porque o capitalismo que gera o desejo de consumo nas pessoas não gera as mesmas condições de aquisição para todos. Daí entram os atravessadores. La garantia? La garantia soy jo.

2- No caso dos DVDs piratas, ainda há dois grandes grupos: os DVDs copiados de outros e aqueles originados de gravações de dentro dos cinemas. Todos tenam reproduzir a arte da capa, as informações etc. Nenhum deles tem garantia de que vai rodar. Agora, o que é quase incompreensível para mim é como alguém se submete a uma imagem e som PORCOS quando pode esperar alguns meses (cada vez menos) para ver uma imagem igual ou muito semelhante ao DVD. Isso quando não saiu o DVD internacional e não já há um torrent do filme disponível.

3- É claro pra mim, no entanto, que o grupo que COMPRA DVDs piratas é majoritariamente diferente do que baixa filmes. Mas me espanta também que em certos lugares o perfil desse grupo pode mudar bastante. Coisa que percebo em Aracaju, por exemplo (que extendo a outras cidades do Nordeste): os DVDs piratas são vendidos EM GRANDES QUANTIDADES para um público de classe média ALTA, que tem plenas condições financeiras de pagar um ingresso de cinema ou comprar um DVD original. Já presenciei a cena seguinte: o sujeito compra o DVD pirata num barzinho, vira-se para o amigo e continua a falar mal “desse políticos safados”. Há um certo prazer escroto e irracional de estar burlando alguém, quando se compra o DVD pirata. Não se sabe bem quem.

4- Há um discurso bastante comum também de que os grandes prejudicados com a pirataria são as majors. Concordo em grande parte. Corporações lucraram décadas com o esforço alheio em um negócio de fácil controle. Hoje em dia, até Bono do U2 sabe que a época do disco está acabando, ou no mínimo ficando muito diferente do que era. Mas na música há uma saída clara: os artistas usam a internet para divulgar a música, o que de certa forma até o CD pirata faz para eles, e ganham verdadeiramente fazendo shows. A lógica é outra. Talvez os superartistas diminuam em mundo no futuro – eu acho ótimo se isso acontecer. Mas há milhares de pequenos grupos e artistas que souberam tirar proveito disso sem assinar nehum contrato “fantástico” com nenhuma gravadora. Mas com cinema é diferente. O filme é o filme. Se eu baixo o DVD, eu não vou para o show do diretor depois.O filme é o filme e acaba ali.

5- De qualquer forma, é triste que boa parte das pessoas use os sistemas de compartilhamento de rede para baixarem, sei lá, 2012, ou qualquer blockbuster que se encontra facilmente em qualquer locadora, ou vai passar no cabo daqui a pouco. Pouca gente usa o verdadeiro potencial da rede: a possibilidade de garimpar pepitas, encontrar tesouros antigos escondidos, revelar algumas jóias raras até um tempo atrás. Não criemos ilusões: o percentual de gente que quer ver um filme do Pedro Costa no lugar de um filme do Spielberg é o mesmo antes e depois da internet. O que muda agora é que um cara que mora em Santo Antônio das Grotas, com uma conexão razoável e alguma paciência, pode baixar o que quiser e não se submeter a um cardápio totalmente restrito.

6- Ainda vendo essa grande vantagem, há outra contradição decorrente da nova realidade. Se, baixando um filme da Warner, você está prejucando a major (bola dentro, corsário anti-capitalista!), quando você baixa um filme de, digamos, Pablo Trapero, você não o está prejudicando? Será que não está tirando um pouco do pequeno lucro que seria investido no seu próximo filme? Estou simplificando um pouco, mas quem sabe fazer uma regra de três entende o que quero dizer. A coisa é mais complexa que isso, mas acho brabo ignorar essa questão.

No fundo, o que acho que é possível é ter uma atitude crítica sempre. É saber aproveitar o que a rede pode dar. É não comprar DVD pirata em 99,99% dos casos (e nem entro na falsa questão de que estamos alimentando os bandidos do tráfico e bla bla bla). É não deixar de ir ao cinema, nem de comprar um DVD oficial de vez em quando do diretor que tu admira (não adianta, algumas edições legais de DVD não podem ser pirateadas por causa das caixas, dos encartes etc). É saber diferenciar o questionamento da simples culpa. E é claro, se dar conta que daqui a três anos a tecnologia pode ter mudado tudo isso que penso agora, sabe-se lá.

Para terminar de forma ilustrativa, dois casos recentes:

– Ainda de férias em Aracaju, já no dia 2 de janeiro à noite fui aboradado por vendedores (mais de um, em diferentes momentos) com o DVD do filme do Lula, com o cartaz na capinha etc. Um amigo meu chegou perguntar se seria mesmo o filme. Eu estou convicto que sim, e me perguntei muito quem seria o comprador-alvo daquele DVD. Aposto com todas minhas fichas que NÃO é o cara pobre que não tem dinheiro e quer ver o filme no cinema. Tenho um palpite, com menos certeza, que é o tipo de gente que alardeia aos quatro cantos o quanto o filme é oportunista –  gente que não tem coragem de pegar uma fila pra ver, mas dentro de casa é outra história. Isso é só um palpite, lógico.

– Anteontem foi lançado em DVD na França o último Jacques Rivette, 36 Vues du Pic Saint-Loup. O filme foi dos menos “festejados” dos últimos filmes do diretor e, não sei se por causa disso, teve distribuição pífia, com presença pequena mesmo em festivais. Estreou nos cinemas em setembro e, quatro meses depois, foi para o DVD. Hoje vi o torrent do DVD inteiro, intocado, com todos os extras etc. Estou baixando agora. Se eu tiver a chance de ver depois no cinema, não perderei. Se lançarem uma edição bacana no Brasil, quem sabe eu compro?

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9 Respostas para “Rivette, Lula e os vários tipos de corsários

  1. Certa vez estava em uma locadora, que fechou as portas logo depois, aliás, como elas vem fazendo em geral, e o filhinho dedurou o pai, quando a moça lhe indicou um filme, esse tu comprou pirata, deixando o adulto constrangido – era, por suas aparência, claramente rico. Assim como, de fato, boa parte dos que sustentam esse mercado.

    Ótimo texto, no mais.

    E teve coragem de pegar uma fila pra ver o Filho do Brasil?

  2. Apesar da imensa classe de meu comentário anterior, cometi um erro de digitação. That’s me, diria um idiota contemporâneo.

  3. Não fui ver Lula, mas mais por falta de tempo do que de curiosidade.

  4. Excelente texto Milton, bem abrangente sobre o tema. O grande problema disso tudo é a demora da indústria em corrigir os problemas que lhe cabem (preço dos DVDs, demora dos lançamentos). Quando acordarem já será tarde demais e acontecerá (se já não acontece) o mesmo do MP3: deixaram que o consumidor se desacostumasse a comprar CDs, e por mais que o preço baixe (e baixou, ainda não que não o suficiente), carinha não tem mais o costume de ir a loja de CD. Realmente é uma questão complicada, que é inevitável e que todos que ganham dinheiro com isso terão que se adaptar.

  5. Leonardo Bomfim

    No Brasil o problema com DVD’s piratas é até justificável. O preço dos lançamentos nacionais é absurdo e a qualidade, na maioria das vezes, é fraca. Você pega um DVD importado (nem precisa ser daquelas edições especiais da Criterion) e geralmente vem livreto, os bônus são interessantes. O mais incrível é que o preço é bem mais barato que os DVD’s vagabundos que lançam aqui. Comprando nas Amazons da vida, mesmo com imposto, sai mais barato que comprar um DVD nacional.

    Agora, realmente é chato quando a cópia pirata substitui a ida ao cinema. Mas quem faz isso não gosta de cinema pra valer.

    Quanto à venda dos DVD’s piratas, a Cidade Baixa já virou uma megastore. A quantidade de vendedores é impressionante. Tinha um que estava vendendo o “Avatar” filmado numa sessão em 3D!hehehe

  6. Legal seu texto. E eu me senti bem, pq me encaixo no perfil que nunca compra piratas, e baixa filmes que não são possíveis de conseguir normalmente. Jamais baixei um blockbuster, e não vejo motivo para tal.
    Há pouco tempo, no entanto, comprei um dvd pirata. Não resisti. Era o Vício Frenético, do Herzog, que eu estava doido pra assistir, e vi vendendo em um camelô em Niterói. Ele passou um pedacinho do filme para mim e parecia estar tudo normal. Desembolsei 8 reais. Cheguei em casa e… a imagem e o som tavam ok, mas as legendas estavam bizarras! Impossível de entender o que falavam. E como meu inglês não é tão bom ao ponto de entender tudo de ouvido, ainda mais num filme cheio de gírias e diálogos rápidos, desisti… gastei a grana a toa. E me senti um trouxa. Aprendi a lição.

  7. Ótimo texto! Eu me enquadro nos que preferem pagar mais caro a comprar um DVD pirata! Afinal, se os piratas tomassem conta, a indústria do entretenimento não sobreviveria. Passe também no meu blog!
    Abraços,
    Le ^_^

  8. Sílvia Freire

    Serviu pra isso este plantão infindável e inútil: achar vc depois de tanto tempo e morando em Porto Alegre! Mande notícias suas. bjs

  9. Sílvia, esse blogue tava meio abandonado, nunca tinha visto esse teu comentário!!!

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