10 anos de Sala P. F. Gastal

Amanhã a única sala de cinema da prefeitura de Porto Alegre, localizada na Usina do Gasômetro, completa 10 anos de atividade. Para além da comemoração óbvia de se chegar a este aniversário com todas as dificuldades orçamentárias possíveis, o que deve ser comemorado – e daí avaliado – é o fundamental papel que a sala desempenha no cenário da cidade.

Há 10 anos atrás, não existia o Cine Santander, nem o Cine Bancários, mas no centro da cidade as três salas da Casa de Cultura Mario Quintana eram a melhor opção da cidade, junto ao Cine Guion na Cidade Baixa, na criação de uma programação “alternativa”; ou seja, na falta de um nome melhor, de uma programação que não fosse ditada por lançamento das majors. Algumas outras opções tinham morrido a pouco ou estavam morrendo, apesar de se destacar pelo seu interesse: quem é de Porto Alegre deve se lembrar que o Cine ABC e o Cine Avenida, ambos na Venâncio Aires, apresentavam nos últimos meses de existência muitas vezes uma programação surpreendente, mas que não foi suficiente para manter a enorme sala única de cada um deles minimamente cheia.

Hoje a situação mudou, de uma maneira um tanto quanto esquisita: embora com as duas novas salas citadas no início do parágrafo anterior, o centro viu as salas da Casa de Cultura Mário Quintana definharem sua programação, graças a um dos casos mais explícitos de descaso público com a cultura dessa cidade – pelo local estratégico, essas salas eram referência e o maior ponto de encontro cinéfilo da década passada. O Guion, que reinava na programação para um público, digamos, mais “chique”, viu parte dele fugir para o Unibanco Arteplex, que fica no cu-do-judas, longe do centro, dentro de um shopping center, com todo o gasto adicional que isso implica e sem um charme da boemia da Cidade Baixa (boemia essa que, decadente principalmente nos finais-de-semana, também ajudou a expulsar parte do público do Guion).

De modo que o que vemos hoje é  uma situação não necessariamente melhor que a de 10 anos atrás. A programação de distribuidoras como Imovision, Pandora e outras que procuram filmes europeus, asiáticos e independentes americanos hoje é majoritariamente direcionada para as 8 (ou 9?) salas do Arteplex. O Guion luta bravamente para garantir algumas opções, enquanto que os outros cinemas viraram “de repertório” meio à força, vivendo de reprises e programas especiais (coisa que o Santander e o Cine Bancários fazem com muito mais criatividade que as salas da CCMQ, diga-se).

E a P.F. Gastal, como se mantém nesse panorama? Sem querer criar um clima de “coitadinha”, é bom lembrar que a sala fica numa das pontas do centro e cercada de contradições por todos os lados: embora seja um ponto turístico que enche durante os ensolarados finais de semana, o Gasômetro não consegue levar o público do pôr-do-sol do Guaíba para dentro da sala; embora o registro de assaltos seja o mais baixo das redondezas, a localização afasta muita gente amedrontada. Junte-se a isso os sinais dos tempos, onde cada um constrói sua filmoteca maluca em casa através dos torrents da vida, e o resultado é uma sala que luta com unhas e dentes para chamar um público cinéfilo que às vezes dá a impressão de não mais existir.

Não vou falar aqui das ações com escolas e congêneres, que enchem a sala e despertam interesse por filmes que normalmente não seriam visto por determinado público –  para isso o material de divulgação dos 10 anos da sala já dá alguma informação oficial. O que quero ressaltar aqui é o papel cultural radical que a sala vem desenvolvendo no panorama cultural da cidade.

Trabalhei na programação da P.F. Gastal no primeiro ano de existência da sala, graças ao convite da Bia Barcellos, então coordenadora de cinema e vídeo da prefeitura. Sinto orgulho de ter ajudado a definir a cara da programação naqueles primeiros tempos de dúvida, mas não tenho dúvida de que, naquele primeiro ano, a sala foi somente uma pálida sombra do que viria se transformar. Marcus Mello, que trabalha na coordenação há tempos e no fundo já fazia a programação junto comigo no primeiro ano, tocou o barco dali em diante e tirou leite de pedra oferecendo para Porto Alegre a programação menos óbvia e por isso mesmo mais estimulante da cidade.

Não vou transformar esse texto numa enumeração dos filmes que passaram pela tela de lá. Fica a sugestão para a administração da sala: coloquem no blogue toda a programação da Sala P.F. Gastal até hoje para dar a idéia exata a quem ainda duvida do papel seminal que ela desempenha para a cinefilia de Porto Alegre.

Vou ficar somente com exemplos recentes: foi na P.F. Gastal que foram exibidos, pela primeira em película por aqui, filmes de diretores asiáticos já consagrados pela crítica internacional, mas praticamente ignorados pela cinefilia local, como Apichatpong Weerasethakul, Hou Hsiao-hsien e Jia Zhang-ke. Foi lá que aconteceu, em película e com legendas eletrônicas em português, uma mostra bastante significativa do cinema de Marguerite Duras. Foi graças à P.F. Gastal que foi possível realizar em Porto Alegre uma mostra dos filmes do Cinema Marginal Brasileiro. E é na P.F. Gastal que acontece o Raros, reunião semanal (pero non troppo) cinéfila que mostra raridades do cinema de horror, refilmagens turcas de blockbusters americanos, um curta proibido de um diretor brasileiro consagrado, um dos melhores filmes de Jacques Rivette, um clássico dos anos 70 de Carlos Reichenbach, todos servidos com debates após a sessão. Seria muito mais fácil, por exemplo, exibir clássicos consagrados, repetir os independentes que passaram pelo Arteplex, ou não mexer uma palha para tentar agitar o panorama atual. Mas é por trazer mostras de ponta que circulam no país, criar criativamente outras  mostras inéditas, manter eventos regulares que criam um público restrito e fiel, estimular o debate e mostrar que mesmo o cinéfilo mais bem-informado pode ser surpreendido, que a P.F. Gastal é radical na programação.

É essa radicalidade (que alguns cínicos fariam questão de chamar de relativa, e eu diria que é relativa mesmo, como só poderia ser relativa essa minha reflexão vinda daqui de Porto Alegre) que faz com que a sala esteja longe de estar sempre cheia, e que muitas vezes frustre as expectativas da equipe que trabalha arduamente para se conseguir as cópias dos filmes. Mas é essa radicalidade que oxigena a magra programação de cinema local como poucas salas daqui fizeram e que deixaria orgulhoso aquele que deu o nome à sala.

Feliz aniversário, Sala P.F. Gastal. Parabéns para o Bernardo, o Marcus, a Angélica, a Beti e mais toda a equipe que trabalha ou já trabalhou lá. Que venham mais 10 anos de inquietação cinematográfica!

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Uma resposta para “10 anos de Sala P. F. Gastal

  1. Milton! Adorei teu blog! Virei fã! bjo

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