duas Duras sem sair de dentro

Nesse domingo pratiquei um esporte radical: foram dois longas da Marguerite Duras, back to back, na mostra que está na Sala PF Gastal da Usina do Gasômetro. E radical não somente porque os filmes da diretora são lentos, difíceis ou pesados, mas porque cada filme dela (vi 4 longas ao todo até hoje) se mostra uma experiência pra lá de intensa, onde o espectador é convidado a participar ativamente da construção do filme, já que há sempre neles a história contada e a encenação que serve mais para sugerir do que para mostrar (ou melhor, para mostrar uma sugestão que vai levar o espectador-leitor a construir seu filme).

No primeiro, Détruire dit-elle, dois homens e uma mulher (ou seja, um casal, mais o amante dela) aproxima-se de uma mulher que tenta curar-se em um hotel da depressão causada pela perda do filho que esperava. O que segue é um jogo de semi-vampiros que hora demonstram completa solidariedade e atração pela mulher, hora a massacram psicologicamente. O comportamento estranho de todos os personagens é mais chocante ainda quando surge o marido da mulher, o único “normal” do filme, e o enxergamos como grande crápula/imbecil da história. Desconcertante.

Já em Agatha et les lectures illimitées (belíssimo título), Duras radicaliza as escolhas estéticas de India Song para contar a história do amor proibido entre dois irmãos: a história é ouvida ou lida, com o texto percorrendo a tela, enquanto vemos paisagens vistas de um albergue à beira do Loire e os dois personagens percorrendo algumas de suas dependências, como fantasmas amaldiçoados. Mesmo que não atinja o nível de India Song, há no filme algumas das mais belas utilizações de janelas já vistas no cinema, seja em termos de enquadramento (Bulle Ogier no cantinho direito e um janelão no resto do quadro), seja pela luz (TODOS os diretores de fotografia brasileiros deveriam ver como pode ser bonito um corpo subexposto), seja pela gama de conexões e interpretações e pelo deleite que algumas delas nos provoca. Me fez lembrar imediatamente do recente curso com o Jean-Claude Bernardet sobre o tema (e o consequente artigo da Ivonete Pinto na última Teoerema). Seria um filme perfeito para acompanhar o curso.

Antes de Agatha teve um curta, Cesarée, que sinceramente achei menos interessante que os longas.

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3 Respostas para “duas Duras sem sair de dentro

  1. Esse seu comentário sobre o plot de “Détruire dit-elle” me lembrou de como eu fiquei impressionado lendo Patricia Highstmith, que fazia a gente torcer pelo assassino mentiroso e desejar a morte dos policiais.

    “(TODOS os diretores de fotografia brasileiros deveriam ver como pode ser bonito um corpo subexposto)” – insuportável assistir a qualquer programa de dramaturgia da Globo. Não sei como aqueles coitados dos atores não desenvolvem melanomas. Tinham de chamar o Gordon Willis para dar um curso, sei lá.

    Baixei vários filmes dela do Karagarga, quando ela foi mestre do mês. Não é o mesmo que ver no cinema, mas pelo menos estão na fila…

  2. Esse tipo de filme em dvix é o tipo da coisa: ruim com ele, pior sem ele.

  3. Olha a ironia: parece que chamaram o Afonso Beato para dar um curso para os diretores de fotografia da Globo!

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