algumas palavras sobre imagens de Gran Torino

Gran Torino é uma lição de economia cinematográfica. Não somente do ponto de vista de produção, visto que Eastwood escolheu um filme claramente low budget para se despedir da frente das câmeras, mas também do ponto de vista estético, na maneira como ele organiza, distribui e combina vários clichês. Não é de hoje que ele sabe que a questão do seu cinema não é evitar essas imagens-fantasma que povam o cinema das últimas décadas – é só lembrar que o homem já fez Pale Rider, que revivia High Plains Drifter, que revisitava uma figura mitificada do western, o cavaleiro solitário que aparecia do nada para “resolver” uma situação. Pois Eastwood parece ter, cada vez mais, noção dessas imagens-fantasma e da manteira como elas podem povoar o filme, combinadas com outras, e produzir significados completamente novos. Não é à toa que nesse filme ele se dá o direito de brincar com a própria imagem, em algumas sequências beirando o cartoon (vide a cena em que ele expulsa o filho e a nora de casa após descobrir que a visita deles foi por puro interesse). Essa liberdade que se aproxima da caricatura pode facilmente, em alguns casos, ser interpretada como mão pesada, o que pode esconder a riqueza de nuances que Eastwood consegue exatamente pela facilidade em trabalhar com esse tipo de imagem.

Daí que poucas pessoas prestam atenção a uma grande cena de Gran Torino, porque esta vem antecipada por uma cena de alívio que beira a frustração: o personagem principal passa o filme todo demonstrando uma culpa por algo que fez errado, e quando ele finalmente aceita confessar, o que ouvimos dele contando ao padre são pequenos pecados que fazem o pároco ter até vergonha em imputar alguma penitência. Mal sabemos que, em breve, nosso herói (e a figura de herói é virada pelo avesso nesse filme como poucas vezes foi no cinema recente) vai trancar o adolescente vizinho no porão, para evitar que ele cometa uma bobagem, e, por trás na tela que os separam, confessa para o garoto qual o pecado que o assombra há tanto tempo.

Numa encenação aparentemente simples, estão lá: 1) a surpresa narrativa, revirando a frustração anterior; 2) a riquesa figurativa, na utilização da tela que separa o pecador e o confessor por ele eleito (já que o padre oficial não representa para ele alguém que teria esse direito); 3) a reinvenção de uma crença, transferindo para um ambiente doméstico banal o confessionário e ampliando o gesto de perdão que percorre todo o filme – lembremos que aquele que escuta sua confissão tinha pecado contra ele no início. O desfecho do filme, que não preciso colocar aqui, só vai aumentar o poder imagético dessa cena e toda sua conotação religiosa.

É quando lembro de Stagecoach e da reinvenção social que o western promovia, colocando bêbados, prostitutas e outros fracassados como potenciais fundadores de um novo lugar. Não é tão diferente do que faz Eastwood nesse belo canto de cisne para uma espécie de figura-fantasma que povoa o cinema americano desde sempre e que ele ajudou a construir, porque sabe que perpetuar uma imagem não é somente copiá-la em detalhes, mas reinventá-la a cada nova aparição.

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5 Respostas para “algumas palavras sobre imagens de Gran Torino

  1. Milton, gostei do texto, gosto muito de cena do padre e gosto muito do filme todo. Não entendi o Oscar desse ano, cheio de porcarias e sem Torino ou mesmo O Lutador, que é um belo filme, Darren surpreendendo. Tu assistiu? Gostou? Enfim, o Oscar não se entende.

  2. O desfecho do filme, que não preciso colocar aqui, só vai aumentar o poder imagético dessa cena e todas a conotação religiosa.

    Tem que arrumar o todas no plural!

  3. Essa cena da verdadeira confissão é bem forte. Por ela e por outras achei o filme bastante católico, assim como “Million Dollar Baby”. A maioria não está prestando atenção?

  4. Moisés, a seleção do Oscar desse ano foi das piores em muito tempo. Gosto muito de O Lutador também. Das duas, uma: ou o Arô aprendeu a filmar (no quarto filme, às vezes acontece) ou foi o Rourke que meteu a mão. Aposto num misto das duas opções. Ah, obrigado pela correção, vou arrumar.

  5. Marcelo, realmente minha frase não foi das mais felizes. O que quis dizer é que não vi muita gente apontando para as qualidades visuais da sequência, na maneira como a tela da porta que separa os dois personagens, mais do que remeter diretamente para o confessionário, faz parte da reinvenção que o filme promove. Para mim é por aí: através da reinvenção iconográfica, se inventa um novo catolicismo (ou, como prefiro, uma nova religião), questionando e redistribuindo papéis.

    É a velha história: claro que Eastwood é conservador, mas o cara faz parte da estirpe de inventores que inclusive questionam verdades já estabelecidas (vide o Flags for our Fathers, por exemplo).

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