Inland

Um agrimensor topa fazer as medições numa região da Argélia devastada por conflitos e ataques terroristas. Detalhe: ele mesmo é um ex-militante político, que vive agora meio isolado do mundo. No novo trabalho, ele entra em contato com uma refugiada do Sudão que, separada do seu grupo que foi quase completamente assassinado, desiste de emigrar para a Europa e decide voltar para o país natal. A segunda parte do filme vai ser essa jornada pelo deserto, de carro, de moto, a pé, enquanto são seguidos pela lei e pelo patrão.

Essa sinopse simplificada de Inland (Gabbla, 2008), de Tariq Teguia pode deixar duas impressões erradas sobre filme:

1- que ele vai na mesma linha de, por exemplo, Exils, de Tony Gatlif. Na verdade o filme de Teguia está muito mais alinhado com boa parte da filmografia de Antonioni – arriscaria dizer que poucos filmes recentes atualizam o mestre italiano tão bem quanto esse. Que não se espere do filme então nenhum “tratado sobre incomunicabilidade”; o que importa aqui são a fricção entre os conflitos políticos e os pessoais –  ou, melhor, o questionamento e embaralhamento das fronteiras entre uns e outros -; a estranha poesia que nasce dos deslocamentos em lugares vastos, às vezes inóspitos, muitas vezes indefinidos; consequentemente, a noção bastante imprecisa de identidade. Não faltam exemplos no filme: a discussão político-revolucionária inicial em grupo (como em Zabriskie Point), o sentido de não pertencer ao lugar e possibilidade de assumir uma outra identidade (Profissão: Repórter, com direito a câmeras aproximando-se de janelas), o sexo no deserto (de novo, Zabriskie Point), mas sobretudo dos personagens em longos planos que beiram a abstração (aqui, de forma bem mais assumida, é verdade).

2- que o filme se constrói dessa forma linear e fechada. Na verdade tanto a narrativa aberta do filme expõe várias possibilidades que não se concluem (quem é o homem que se suicida no início?), quanto seu figurativismo flerta com muita facilidade com o abstrato, mostrando um grande talento para mostrar o potencial plástico de imagens aparentemente realistas do vídeo. Em suma, Inland é um filme extremamente sensorial, como era, digamos, Brown Bunny, mas muito mais bem resolvido narrativamente. E o uso da música é fantástico.

Tariq Teguia, um nome a se seguir de perto.

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