direto dos emails: O Franco Atirador

Prólogo: recebo um email do Fabiano de Souza, que está em Paris, falando como ver um filme do Lubitch tinha feito bem a ele.

Um dia depois:

On 24/01/2009, at 22:39, Fabiano Grendene de Souza wrote:

Nada melhor que um Cimino para enterrar um LUBITCH

Alô Milton!

Passei a vida toda fugindo do FRANCO ATIRADOR – como diria aquele, sabe-se lá por quê.

Estou estarrecido.

Abraços,

Fabiano

Em 27/01/2009, às 17:45, Milton do Prado escreveu:

Cara, minha história com esse filme é a seguinte:

no final dos anos 80, comecei a ver esse filme na TV, com meu pai. Estava adorando o filme, mas era madrugada e o cansaço me venceu depois de uma hora.

Semanas depois, peguei uma VHS com ele. Estava revendo o início e, depois de uns 30 minutos, o videocassete quebrou, antes do ponto onde tinha parado! Mandei para o conserto, levou dias para me darem a fita de vota, tive que devolver no video-clube (do Brasil!).

Depois sempre tentava pegar e ele nunca tava disponível.

Meses depois, perguntei pelo filme: um sócio tinha levado a fita e nunca mais a devolveu.

E eu, de minha parte, desisti do filme por ali. Nos anos 90 não se falava muito de Michael Cimino e eu fui na onda, ajudado pelas minhas tentativas frustradas.

Grande elipse: lá estou eu em Montreal, na época que trabalhei no restaurante. O trabalho era pesado, começava às 15 horas e ia até o último cliente, na verdade depois disso, até o último prato lavado. Com sorte saía à meia-noite, mas muitas vezes fui até às 3 da madruga. Chegava em casa, tomava um banho e não conseguia dormir logo: as mãos doendo, o barulho no ouvido, eu ia dormir no mínimo 2 horas depois. Então, depois de uma semana, comecei a pegar filmes para ver quando chegasse, já que eu ia ficar acordado, mesmo.

Poderia falar de vários filmes que vi nessas madrugadas cansadas e doloridas, mas sem sombra de dúvida a experiência mais marcante, bela e aterradora, foi ver O Franco Atirador. Comecei a ver às 2 da matina, ou seja, acabei ali depois das 5. Abri uma cerveja e fui para o quintal ver o sol nascer. Às 6 fui pra cama, mas não consegui dormir. Depois de uma hora me virando na cama, me levantei e saí para andar. Resultado: tive que sair para o trabalho às 14hs, sem ter dormido nem um minuto. Só sei que lavava os pratos com as imagens do filme na cabeça – e temos aí várias cenas memoráveis, como a dança no início, a roleta russa, De Niro voltando e caçando sozinho, o reencontro dos dois amigos no Vietnã (Christopher Walken enlouquecido), a cena final, de uma dor e ironia ímpares…

Cara, para mim O Franco Atirador é um país, habitado por fantasmas, e depois que tu vê o filme todo tu acaba morando lá também.

abração,

Milton


De: Fabiano Grendene de Souza <fabianodesouza@clubesilencio.com.br>
Data: 27 de janeiro de 2009 22h39min50s CET
Para: Milton do Prado <miltondoprado@yahoo.com.br>
Assunto: Re: Nada melhor que um Cimino para enterrar um LUBITCH

Cara, me emocionei ao ler o teu email…

Eu fiquei deveras tocado pelo filme – dá para dizer que até fisicamente. Voltei transtornado para casa, esquisito. A Gabi tinha dito que na saída eu podia tomar um chope. Preferi ficar de bico seco, porque deu vontade de tomar um caminhão de álcool – e isso já não estava permitido. Eheheh

Mas o filme é exemplar em retratar não só os dias anteriores à partida, mas um cotidiano cinzento, gelado. Aliás, o Cimino filma muito bem aquela paisagem incolor, onde sempre um vento, uma fumaça, desvela uma realidade que se liquefaz.

Aquela fábrica, cheia de soldas, de fogo explodindo, é um comentário sobre a guerra, antes da cizânia bélica entrar em cena.

E depois, aquela cena do bar. Todos cantando I LOVE YOU BABY é de rachar o coração. E o triângulo STREEP – DE NIRO – WALKEN? Aliás, o Walken está impossível – acho ele o grande personagem do filme.

E a elipse? Corta dos caras bêbados, com o gordo tocando piano, para os caras já dominados!!!! Aquela cena da roleta russa é demais! E depois vem aquela do helicóptero.

Mas a volta do personagem do DE NIRO também é ótima – e a relação dom a MARYL é demais. Um silêncio confuso, uma desilusão em tom menor…

Porque o que eu achei legal do filme é que é um filme que não se esgota na “guerra”: é Sobre amizade, amor, turma, tempo, retorno, geração e, claro, EUA.

A cena final não é só genial pelo cântico final, mas porque ninguém quer ficar à mesa. É quase uma dança…

Era isso,

Aquele abraço,

Fabiano

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5 Respostas para “direto dos emails: O Franco Atirador

  1. O Franco Atirador é lindo, poderoso e estarrecedor! Felizmente, tenho em dvd …
    Cara, indiquei seu blog para um selo. Dá uma olhada lá nas regras, no meu blog …
    Abraço!

  2. Agora vou ter q assistir né Milton!

  3. Mas bah! Vou agora mesmo procurar O Franco Atirador pra comprar…
    E como eh engracado ler trocas de emails de cineastas falando sobre filme! Sempre surgem umas analises pra lah de interessantes…

  4. Caramba, Milton! Que bela história pra se contar sobre um filme. Eu vi O FRANCO ATIRADOR em vhs e não entrei muito no clima, talvez por não imaginar um filme tão longo. Pretendo ver em DVD em breve, ainda mais depois desse teu relato.

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