Rapidinhas da semana

Semana passada passou Bendito Fruto na Globo. Passados seus primeiros 10 ou 15 minutos um tanto quanto desajeitados, o filme se mostra uma comédia popular deliciosa, com o elenco dando show – Otávio Augusto à frente, é claro. Mesmo que no final se mostre bem mais conciliador do que parecia ao início, o filme não deixa de problematizar o Brasil e o faz de maneira completamente integrada à comédia meio chanchadesca. Que o filme não tenha ido muito bem de bilheteria à sua época (2005) e que o Se eu Fosse Você 2 esteja estourando a boca do balão, é motivo para se pensar que tipo de cinema popular o brasileiro está querendo hoje em dia.

****************************************

A Troca, o novo do Clint Eastwood, é um de seus filmes mais fracos desde Dívida de Sangue. Me parece que tem um excesso de personagens, e a costura entre o drama familiar e a trama policial não é muito bem-feita, em particular quando a personagem está no sanatório. Interessante notar que um dos momentos mais fortes do filme não venha de uma cena com a personagem principal (feita por Angelina Jolie), mas da que o adolescente forçado a cometer crimes pelo psicopata revela onde eram enterrados os corpos das crianças. Eastwood alterna momentos feitos no automático (as cinzas do cigarro caindo no chão me pareceram recurso de estreante, quando bastava o close do cigarro que veio logo antes) com sua habitual mão firme e elegância, e extrai de Jolie o que ela pode, mesmo no meio de dezenas de coadjuvantes que parecem prometer entrar no filme a toda hora, sem nunca fazê-lo definitivamente.

****************************************

Somente nesse fim-de-semana vi No Direction Home. Mesmo inflado como os últimos longas de Scorsese, sua articulação clara (como já era a do  A Personal Journey…) deixa a impressão que o cineasta está se empenhando muito mais nos documentários que nos filmes de ficção.

****************************************

Vistos quatro curtas de Man Ray na caixa Avant-Garde. Prefiro-o como fotógrafo, ou até como agitador, mas a surpresa para mim foi L’Étoile de Mer, que mantém a força poética mesmo que o “poético” proposto por Ray (e por todos daquela turma) seja muitas vezes bem datado. O uso do fora de foco (na verdade, um vidro com saliências em frente à câmera) dá ao filme um ar onírico que me pareceu mais forte que os cortes bruscos de Emak-Bakia.

Anúncios

12 Respostas para “Rapidinhas da semana

  1. Milton, temos impressões parecidas com relação ao filme do Clint, se bem que o vejo com mais simpatia do que vc viu, inclusive acho a cena do garoto o ápice e a do cigarro um exibicionismo.

  2. Também gosto bastante do Bendito Fruto. Mas não é preciso ir tão longe, basta lembrar que há alguns meses entrou em cartaz um tal de Encarnação do demônio.
    Não adianta, a expressão “cinema popular” virou piada. O foco dos filmes de sucesso é a classe média-alta.

  3. “Bendito Fruto” foi bem recebido pela crítica no lançamento. Talvez o Otávio Augusto, apesar dos anos de Globo, não seja estrela o suficiente para ser chamariz de bilheteria.

  4. Já ia dizer mais ou menos o que o Marcelo falou. O problema é que Otávio Augusto e aquela atriz que faz par com ele não são chamarizes de bilheteria. O povo em geral quer ver gente mais bonita. Não que eu esteja dizendo que eles são feios. hehee..

    Quanto ao A TROCA, já considero o filme um dos meus favoritos do cineasta. E gosto também de DÍVIDA DE SANGUE…hehehe

    NO DIRECTION HOME é ótimo, mas as cenas mais fortes do filme foram filmadas por outro diretor, que é do polêmico show que mudou o rumo da carreira de Dylan. Mas como diretor de documentário não necessariamente precisa ter filmado a cena, então tá valendo. Ainda assim, prefiro os seus docs sobre cinema americano e cinema italiano.

  5. Michel, agora que vi teu texto. Concordo com quase tudo, discordo da cena do enforcamento, que para mim é um dos pontos altos do filme, principalmente por se alongar (levando-se em conta que Eastwood já dirigiu um filme onde a pena de morte era tema central, é interessante pensar essa cena à luz dele).

    E sacanagem com Otávio Augusto, mas essa explicação dele não ser chamariz de bilheteria tem a ver.

    Aílton, quero deixar claro que acho A Troca melhor que o Dívida de Sangue, este um filme definitivamente menor na carreira do diretor.

    Sobre Scorsese não ter filmado várias da cenas mais fortes do filme, para mim isso não tem a menor importância na avaliação do mesmo, pois é claramente um filme de articulação de material (alheio, de entrevistas etc).

  6. Milton, a mim pareceu uma das cenas q destoa, q força um melodrama desncessário, ver aqueles pés se debatendo não me pareceu acrescentar mto.

  7. O filme, como outros do Eastwood, é bastante calcado no melodrama, o que nunca foi um problema. Na hora do enforcamento, a cena dos pés se debatendo na verdade é de um registro mais seco. Achei uma porrada, um dos poucos momentos do filme que me tocaram de alguma maneira. A comparação com a cena de enforcamento de Dançando no Escuro, de que gosto bastante, daria um texto interessante.

  8. Bendito Fruto foi uma surpresa pra mim. Nunca tinha ouvido falar desse filme. Provavelmente foi o caso de filmes nacionais que entram em cartaz e ficam apenas uma semana porque é ignorado pelo público.

    Confesso que assiste a ele por pura preguiça de sair da sala e ir dormir. E só não mudei de canal por pura sorte.

    O bom que quanto mais a história progredia mais ficava irresistível de ver no que iria dar. Não é uma comédia de gargalhadas mas de sorrisos, o que às vezes é bem melhor.

    Infelizmente, se dependermos apenas do público comum dos cinemas, teremos em breve Zorra Total – o filme…

  9. Morrendo de vontade de ver A Troca …

  10. Também gosto muito de Bendito Fruto, até comprei o dvd numa promoção por aí. A Vera Holtz tá excelente. E não vi A Troca, yet.

  11. Eduardo Aguilar

    Fala Milton!

    Sou um gde fã de “Dívida de Sangue”, mas… sobre cinema popular, são muitas as considerações, a começar pelo alto preço do ingresso, quesito q. afasta parte significativa do público “popular”, mas qdo a gente se depara com aquele filme espírita com o Carlos Vereza (esqueci o nome) fazendo um público expressivo (até onde acompanhei mais de meio milhão de espectadores) e exibido em poucas salas com divulgação pequena, a gente percebe q. há algo muito equivocado com o pretenso cinema q. se propõe popular no Brasil.

    Prá ser bem sincero, eu não curti nada o último filme do Zé do Caixão, mas para além do meu gosto pessoal, no ato em q. assisti o filme tive a certeza de q. fracassaria, não há nada de popular nele!

  12. Popular é SE EU FOSSE VOCÊ 2 que acabou de bater os recordes do cinema da retomada. Começou a ser exibido no final do ano passado e ainda está passando nos cinemas!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s