CEN 2008 – curtas

Enquanto a lista de Melhores de 2008 não chega (está dando mais trabalho do que eu pensava), começo a retrospectiva do ano passado por um outro tópico.

Em outubro de 2008 fui chamado para ser membro do júri do Cine Esquema Novo, festival de cinema daqui de Porto Alegre que privilegia filmes com pesquisa de linguagem, interação com artes plásticas, inquietações formais ou temáticas e um grande etecétera. O festival, que está em sua quinta ou sexta edição, tem alguns problemas, que comentei inclusive para o pessoal da organização, mas é evidente que vem se aprimorando ano a ano. Aceitei na hora, até porque seria uma ótima chance de ver um apanhado de curtas e longas brasileiros de uma vez só. Para quem tinha ficado quatro anos fora, um prato cheio.

Junto com meus colegas de júri – e excelentes companheiros –  Bernardo de Souza, Marcelo Lyra, Mariana Xavier e Pablo Lobato, chegamos à premiação final que vocês podem ver AQUI. Mas júri é aquela coisa: a definição final funciona mais ou menos como um denominador comum de várias cabeças diferentes, e como sempre tive vontade de explicitar quais seriam as minhas escolhas pessoais, aproveito esse post para isso.

Com vocês, OS MEUS DESTAQUES DO CEN 2008.

Primeiro, os curtas:

Corpo no Céu, de Luisa Marques

Corpo no Céu (Luisa Marques, 2008, 23 min.)
Provavelmente é, dentre os curtas que não levou nenhum prêmio, aquele que mais me fez sofrer por isso. A delicadeza e o olhar desse filme sobre  uma garota que está prestes a viajar, acompanhando seu cotidiano (casa da praia, namoro, saída noturna, relações familiares) nunca se rende a nenhum psicologismo. Poucas vezes vi um curta de estreante (acho) filmar tão bem o corpo de sua atriz. Um filme formalmente contemporâneo, mas que nunca anuncia isso, só se preocupa com o que está filmando. Um dos meus três curtas preferidos do festival.

Espuma e Osso (Ticiano Monteiro e Guto Parente, 2007, 20 min.)
Ganhou o prêmio de Melhor Curta, ou seja, já foi bastante laureado, mas faço questão de destacá-lo por aqui. É um dos curtas mais estranhos que vi nos últimos tempos. Na primeira “metade”, mostra em PB o tédio de um “Mickey” em sua casa: escovando os dentes, vendo TV, bebendo. Até que ele sai de casa e o filme dá uma virada: cor e barulho no “trabalho” dele, num parquinho de diversões acompanhado de amigos (Pateta, Donald etc) até sua saída do expediente. É uma sacada genial, feita no momento certo, que só aumenta a melancolia já presente no filme, que planta uma inesperada conexão entre Fortaleza e a Tailândia de
Apichatpong Weerasethakul.

O Vampiro do Meio-Dia (Anita Rocha da Silveira, 2008, 19 min.)
Simpatissíssimo curta sobre as descobertas de um adolescente . Forma uma dupla interessante com
Corpo no Céu, ambos retratos adolescentes com estilo, carinho pelos personagens e delicadeza. Ambos fazem acreditar num possível  novo olhar feminino entre as curta-metragistas cariocas.

Terra (Sávio Leite, 2008, 5 min.)
Irresistível projétil de animação com narração impagável de
Paulo Cesar Pereio, sobre a linha tênue entre a banalidade e a mediocridade.

Um Ramo ( Juliana Rojas e Marco Dutra, 2007, 15min.)
Esse já premiado curta é realmente um primor de realização, construção de clima e, de quebra, um trabalho magnífico de uma atriz,
Helena Albergaria (que já tinha visto numa peça do grupo Companhia do Latão). Um dos melhores filmes fantásticos feitos no Brasil, certamente o mais angustiante.

De resto (Daniel Chaia, 2007, 12 min.)
Com um final insatisfatório, o filme de Chaia ganha pontos pela excelente direção de atores (no caso, atrizes) e movimentos precisos de câmera, numa angustiante construção de um clima absurdo a partir de um dedo achado por duas serventes de um salão de festas.

Corpo Presente; Beatriz (Marcelo Toledo & Paolo Gregori, 2007, 20 min.)
Dos trabalhos do Paolo Gregori que já vi, este é o mais bem-comportado, talvez por se tratar de uma co-direção. A narrativa me lembrou um pouco Offside, de Jafar Panahi, já que começa pelo fim e depois encadeia a série de situações banais que antecederam a tragédia. Só que aqui a causa mortis não é mostrada e cabe ao expectador construir a ponte, num filme muito bem-feito que faria um ótimo programa com Um Ramo e De Resto, todos eles curtas com excelente realização e foco especial nas atrizes.

Ko (Dellani Lima, 2008, 5min.)
O melhor filme experimental do festival, com controle absolute dos poucos elementos com que trabalha (sombra, algumas imagens identificáveis, o grave do som) tudo em prol da sensação. Uma pequena maravilha, que gostaria de rever várias vezes.

Ocidente (Leonardo Sette, 2007, 7min)
Essa experiência de Leonardo Sette brinca com abstração e figuração através de um dispositivo simples: uma câmera dentro de um trem, um casal sendo filmado sem saber (ou não). Em pouco tempo, várias possibilidades narrativas (um outro casal mais jovem aparece) e imagéticas (imagens refletidas, “fusões”) são sugeridas. Um curta poderoso, que faz excelente dupla com o mais minimalista Ko.

É isso. De 36 curtas, poder destacar 9 é bem satisfatório.

Em breve comento os longas.

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18 Respostas para “CEN 2008 – curtas

  1. Grande Milton. Bem vindo de volta a Forno Alegre. Chegou a ver nesse CEN o curta universitário Dor de Cabeça? É de uma gurizada boa da Puc. Eles fizeram um último agora, Quarto de Espera. Se puder dá uma olhada.
    Abraço.

  2. Filipe Furtado

    Não acho muito justo creditar o que Corpo Presente tem de mais acessivel a co-direção do Toledo já que eles já haviam co-dirigido filmes antes. Acho que o Paolo tem uma facilidade muito grande em se instalar em determinados registros e a opção no caso foi por algo a primeira vista mais acessível. De qualquer forma é um dos curtos nacionais do ano que mais curto (diria o mesmo do filme do Leo Sette).

    Muito legal ler seus elogios ao curta da Luisa que ainda não vi, mas me deixa bem curioso.

  3. Fala, Keenan! Sim, vi o Dor de Cabeça, que também estava na competição oficial. Não gostei muito do filme em si, acho que se perde um pouco num tipo de clichê do “personagem problemático”, mas deu pra ver que há talento na realização.

    Filipe, qual foi o outro filme que eles co-dirigiram? Fiz a suposição acima por ignorância, mesmo, mas agora me dei conta que o Marcelo também era um cara da Paraísos artificiais, ou não? – fui agora no imdb e vi que o Marcelo foi roteirista do A Bela e os Pássaros, que é talvez meu filme preferido de Gregori.

    O comentário do Keenan me lembrou outro detalhe: o Corpo no Céu foi, se não me engano, um curta de curso de cinema. Fiz todos os elogios sem nem lembrar desse detalhe.

  4. Fala, Milton,

    No fim do ano fechamos um especial sobre o Cine Esquema Novo no programa da Converse, não sei se tinha te passado o link:

    Grande abraço,
    Daniel Bacchieri

  5. Valeu o recado, Milton. AMOR LOUCO já foi indexado nos links do site OLHOS LIVRES. Agora, aqui entre nós, o que deu na cabeça de quem escolhe os filmes que vão concorrer nos festivais para ignorar – sistematicamente – o ótimo curta do Vébis Júnior, “Nas Duas Almas”? Como bem disse um amigo e crítico militante, “ignorância fílmica”. Poucas vezes vi um curta que se assemelhasse tanto (em espírito e entusiasmo) aos primeiros filmes (especialmente os curtas) de Godard. Num evento “que privilegia filmes com pesquisa de linguagem, interação com artes plásticas, inquietações formais ou temáticas e um grande etecétera” esse curta não poderia ficar de fora!

  6. Filipe Furtado

    Se memória não falha ele tem co-crédito de direção justamente no A Bela e os Pássaros. Tenho certeza que Paolo trata o filme como sendo dos dois (na época que o filme circulou eu era aluno dele, então conversamos algumas vezes sobre o filme).

    A Luisa fez o Corpo no Céu na UFF sim.

  7. Alô Daniel! Vou dar uma olhada no link.

    abração!

  8. Carlão, ainda não vi – e estou ansioso para ver – o curta do Vébis, mas sobre a seleção dos curtas já passei minha opinião para o pessoal do CEN: tem que deixar de lado os filmes que dão sensação de novidade (muitas vezes discutível, diga-se) e privilegiar a relevância. Acho que é um dos ajustes que o Festival precisa fazer. Em todo caso, fiquei restrito ao universo de 36 curtas que me deram (e fico esperando uma cópia do filme do Vébis! eheh).

  9. oi, milton. que surpresa boa encontrar suas palavras sobre o corpo no céu. fico feliz pela empolgação sincera com o filme!

    abraço,

    luisa.

  10. Fernando Araujo

    Alo Milton, estou ainda em Montreal mas não sabia que tu tinhas voltado para o Brasil. Feliz ano novo para ti e tua família. Ficamos aqui neste frio siberiano invejando os que tem a chance de se deleitar no calor do Brasil.

  11. Oi Luisa! Que surpresa também ler esse teu comentário. Acabamos não nos conhecendo durante o Festival, devido às circunstâncias, por isso acabei não te dando os parabéns pessoalmente.

    Um abraço pra ti também.

  12. Alô Fernando, tudo bem?

    Sim, voltamos dia 28 de agosto. Eu não sou muito fã de calor, mas não posso reclamar desse verão, que não está dos mais senegaleses que já vi em Porto Alegre.

    Mais tarde esse ano devo dar um pulo aí.

  13. Oi, sucesso para o seu novo blogue, o Amor Louco (alguma homenagem a Rivette?). Aliás, grato por ter “lincado” o Balaio, que, pra falar a verdade, ultimamente tem dado mais espaço à poesia do que propriamente ao cinema, de resto, uma paixão de todas as horas. Abraços.

  14. Oi Moacy. Já tinha o Balaio lincado ao blogue antigo, e foi justamente pelo seu caráter mais eclético (não restrito a cinema) que o coloquei na seção “Outros Blogues”.

    “Amor Louco” pode ser entendido como uma homenagem dupla ao Rivette e à Fellini (a banda, não o cineasta).

  15. Milton, e a lista 2008?

  16. Essa semana.

  17. Marcelo Toledo

    Eu o Paolo co-dirigimos o A Bela e os Pássaros e o Corpo Presente: Beatriz.
    Estamos terminando agora nosso longa em co-direção, chamado só de Corpo Presente.
    Fora isso, fiz direção de fotografia em outros curtas dele. A verdade é que quando trabalhamos em conjunto surge um terceiro diretor, que pouco guarda de relação com os outros trabalhos do Paolo ou com os meus.

  18. Oi Marcelo. Obrigado pelo comentário (e desculpa pela demora, ando meio afastado daqui, como deu pra perceber).

    Fico na espera pra ver Corpo Presente, o longa. É verdade que ele passou na Cultura esses dias?

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